Gesner Brehmer de Araújo Silva
Doutorando em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Bacharel em Economia e Mestre em Planejamento Territorial pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Conselheiro Suplente do Conselho Regional de Economia da Bahia
A partir da Revolução Industrial e do avanço da eletromecânica, a indústria passou a transformar a economia global ao se consolidar como um grande motor de produtividade. Esse processo, amplamente estudado por teóricos como List, Hirschman e Krugman, não apenas modernizou a produção, mas elevou padrões de vida e impulsionou o urbanismo. Na economia contemporânea, o setor permanece vital por fortalecer cadeias produtivas, gerar empregos qualificados e garantir a autonomia estratégica das nações por meio de investimentos constantes em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
No caso da Bahia, a transição do modelo agrário para a industrialização planejada ocorreu em meados da década de 1950, apoiada pelo Estado com a criação do Polo de Camaçari e do Centro Industrial de Aratu (CIA). Contudo, esse modelo consolidou uma estrutura concentrada setorialmente em bens intermediários — como os setores químico e petroquímico — e espacialmente na Região Metropolitana de Salvador, atuando de forma complementar à base industrial do Sudeste.
Nas décadas seguintes, crises inflacionárias e a redução do apoio estatal levaram ao esgotamento desse padrão, que adentrou o século XXI enfrentando perda de dinamismo, gargalos de infraestrutura e baixa competitividade.
A reestruturação necessária exige a implementação de Sistemas Regionais de Inovação, arranjos institucionais que articulem governos, empresas e universidades para garantir que o conhecimento científico se transforme em soluções de mercado. Para tanto, é preciso superar entraves críticos, como a obsolescência de modelos produtivos, a precariedade logística e a dependência dos municípios em relação à administração pública, que inibe o surgimento de um setor privado pujante em pequenas localidades.
Aliado a este cenário, é crucial que os modelos de desenvolvimento industrial não estimulem apenas aglomerações e encadeamentos produtivos, mas setores de maior intensidade tecnológica que irradiem o conhecimento e atuem conjuntamente com as vocações produtivas encontradas não apenas no entorno da Região Metropolitana de Salvador.
Neste contexto, os setores de alta e média-alta intensidade tecnológica, conforme classificação da OCDE, surgem como novos vetores de dinamização. O investimento nesses segmentos justifica-se pela capacidade de internalizar o progresso técnico e elevar a produtividade sistêmica, permitindo que a Bahia ascenda na divisão inter-regional do trabalho.
O estado possui vocações claras que podem ser potencializadas por tecnologias de alta e média-alta intensidade tecnológica, fundamentais para modernizar a agroindústria, desenvolver soluções em energias renováveis, indústria da saúde e logística. Essas competências distribuem-se estrategicamente pelo território: a agroindústria, a fruticultura e o potencial energético destacam-se no Extremo-Oeste e na região do Rio São Francisco; a mineração, agropecuária e logística ganham força no entorno de Jacobina, Irecê, Feira de Santana, Jequié e Vitória da Conquista; enquanto o polo cervejeiro em Alagoinhas, a celulose e o turismo no Sul, e a biotecnologia na Região Metropolitana de Salvador, completam os potenciais vetores de desenvolvimento baiano no século XXI.
Ao operarem em sinergia com as potencialidades locais, esses setores atuam como vetores de inovação e qualificação do tecido produtivo. Essa dinâmica permite a transição do modelo atual para um desenvolvimento sistêmico, capaz de reduzir assimetrias regionais e tornar a Bahia mais competitiva na economia global.
A superação dos obstáculos ao desenvolvimento exige uma estratégia coordenada entre Estado, setor produtivo e academia, focada em inovação e capital humano. Para isso, o planejamento deve ser resgatado como uma política de Estado perene, e não apenas de governo, estruturando-se em quatro dimensões: avanços tecnológicos, solidez institucional, maturidade empresarial e competitividade sistêmica.
A nova política industrial deve ser adaptada às particularidades de cada entorno produtivo baiano, respeitando suas competências e potenciais de aprendizado. Nesse cenário, a parceria com a China-que tem aumentado seus investimentos no estado- surge como uma oportunidade estratégica, especialmente em infraestrutura logística e setores de alta tecnologia, como veículos elétricos, baterias e biocombustíveis. Esses investimentos têm o potencial de gerar efeitos multiplicadores na economia local, reduzindo custos e aumentando a eficiência das cadeias produtivas.
Para garantir que essa cooperação resulte em ganho tecnológico real, o Estado deve atuar ativamente na negociação de joint ventures (associações entre empresas que compartilham recursos, riscos e conhecimentos para executar um projeto específico ou explorar um novo negócio sem perder suas identidades jurídicas), e na criação de parques tecnológicos binacionais que prevejam a transferência de conhecimento. O foco deve recair sobre setores de alta e média-alta intensidade tecnológica, visando elevar a complexidade da estrutura produtiva baiana. Tais medidas são fundamentais para reduzir a dependência externa e reposicionar a Bahia de forma competitiva e resiliente na economia global.
A trajetória industrial da Bahia para o século XXI exige a superação de desigualdades regionais e a integração produtiva do interior ao dinamismo tecnológico, evitando que polos isolados perpetuem a estagnação. Para viabilizar um novo ciclo de desenvolvimento, a política industrial deve focar na redução de custos sistêmicos e na inserção em cadeias de alta intensidade tecnológica, unindo inovação, aprendizagem e coesão territorial como pilares para um padrão produtivo mais moderno e sofisticado.
¹ Equipamentos de Informática, Eletrônicos e Opticos; Farmoquímicos e Farmacêuticos; Máquinas e Equipamentos, Materiais Elétricos; Outros Equipamentos de Transporte; Químicos e Veiculos Automotores






