É fato que o Brasil adota a segunda maior taxa real de juros básicos do mundo, da ordem de 9,5% ao ano, precedido apenas pela Rússia, com 9,67%. Porém, a Rússia é um país em guerra permanente durante os últimos quatro anos e que sofre restrições de toda ordem no plano externo, inclusive com o congelamento dos seus ativos internacionais. Seria gravíssimo se a anabolização da taxa básica de juros brasileira estivesse ocorrendo nos poucos últimos anos; todavia, essa é uma política estabelecida há décadas.
Já em 1984, o economista Dércio Garcia Munhoz, em um artigo publicado na revista da Arthur Andersen afirmava, que “o déficit público não cai, porque, na verdade, ele é fruto da especulação financeira, sob a batuta do Banco Central” e que “o setor privado se auto-apunhala ao não reconhecer que o problema é de especulação no sistema financeiro…os empresários, pressionam por cortes de gastos governamentais e das estatais, sem se dar conta de que a dívida pública continuará a crescer porque o crescimento dela é maior que o Orçamento Fiscal. Esse é o calcanhar de Aquiles do governo e dos empresários que são co-responsáveis por ajudarem a alimentar essa farsa”.
Quase vinte anos depois, em 2003, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. em artigo publicado na Folha de S. Paulo, criticava a política monetária influenciada por economistas liberais, alguns recém-saídos da Academia, e via ingenuidade na crença de que a economia brasileira se tornaria menos vulnerável e mais cappaz de crescer quando estivesse assegurada a “sustentabilidade das contas públicas”. Desde aquela época, vozes influenciadoras da política nacional afirmavam que as reformas trabalhista, previdenciária e tributária, equilibrariam as finanças públicas, permitiriam a redução expressiva da taxa de juros e garantiria a retomada do crescimento econômico.
Mesmo que tais reformas sejam benéficas sob alguma perspectiva, é, de fato, ingênuo imaginar que elas mudarão o rumo do crescimento econômico, seja pelo hiato dos seus efeitos no tempo, o mesmo tempo em que mudanças demográficas ampliarão a base de aposentados, e avanços tecnológicas alterarão a composição técnica do capital contendo o aumento do número de trabalhadores e, por fim, a reforma tributária sempre foi pensada de modo a preservar o patamar tributário quanto o seu caráter regressivo, pautado na dominância dos impostos indiretos.
Àquela época, como no momento presente, o cenário internacional era de grande instabilidade política, militar e econômica e o economista Paulo Nogueira, recomendava prudência, além de estratégia imaginativa e corajosa em defesa da economia nacional.
Ainda em 2003, o mesmo jornal paulista, publicava uma matéria assinada pelo Editor Guilherme Barros, sob o título “Bancos engolem a receita de empresas do setor produtivo”. O artigo reproduz um estudo da consultoria Austin Asis, que analisou 300 empresas não-financeiras e 100 bancos, em 1994, 1998 e 2002. Como síntese, o estudo demonstrou que as despesas financeiras das empresas do setor produtivo representavam, em 1994, 3,5% das receitas, passando a 14,2% em 1998 e alcançando 35,1% em 2002. Em contrapartida, em 1994, os bancos obtiveram um lucro consolidado de R$ 2,5 bilhões, que saltaram para R$ 22,8 bilhões em 2002. Em sentido contrário, as empresas analisadas do setor produtivo, saíram de um lucro consolidado de R$ 8,5 bilhões em 1994, para um prejuizo de R$ 39,7 bilhões em 2002. O articulista encerra o texto argumentando que nada justificava o patamar de juros vigente, de 26,5% ao ano.
Posteriormente, em 2008, novamente o economista Paulo Nogueira, em artigo intitulado “Extravagâncias Monetárias”, ressaltava que o Brasil liderava com folga a taxa de juros reais mais elevada do mundo, dentre 39 outras economias; ou seja, o país continuava com a maior taxa de juro real do mundo, em uma época em que alguns países, como os Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, praticavam taxas reais de juros negativas. Não é ocioso salientar que taxas de juros exorbitantes e acima do resto do mundo, atraem capitais especulativos, valorizam o Real sob a clara e anunciada perspectiva de manutenção do diferencial de juros, reduz a competitividade da economia brasileira, especialmente no campo dos bens industrializados e aumentará o déficit no balanço de pagamentos em conta corrente. Talvez, possamos relacionar o êxito da inserção internacional da Coreia do Sul, em parte, ao fato de, quando necessário, estimular o investimento produtivo e em ciência e tecnologia, via baixo custo do dinheiro.
Nogueira sempre criticou a falta de controle dos movimentos da conta de capital, pelos riscos permanentes de provocar volatilidade cambial, especulação de ativos e interferência na autonomia da política monetária. Controlar não é impedir o fluxo de capitais externos, mas coibir destinações que são próprias de capitais voláteis, com potencial desestabilizador da economia.
Como se pode observar, o Brasil pratica as mais altas de juros do mundo durante os últimos 42 anos e isto tem um elevado custo, não somente para cada momento específico da economia nacional, mas para o futuro da nação.
No período de 1930 a 1980, a economia brasileira cresceu a uma taxa média da ordem de 7% ao ano e o PIB per-capita à uma taxa média de 4% ao ano, segundo vários registros e autores. Foram os anos das grandes transformações da estrutura econômica nacional, com o despertar para a industrialização, a criação das institucionalidades provedoras dos fatores determinantes de produção (infraestruturas físicas de transporte, energia e comunicação, crédito de longo prazo, estímulos creditícios e tributários aos investimentos produtivos, legislação trabalhista, ainda que somente para a parcela urbana do trabalho), promoção da mudança estrutural na composição orgânica do capital, elevando a força produtiva social do trabalho e a produtividade da economia, inclusive realizando a transferência de mão-de-obra ocupada em atividades de menor valor agregado para aquelas de maior valor agregado, resultando no aumento da acumulação do capital.
Mereceria um capítulo à parte a “economia política” do periodo autoritário que se impôs de 1964 a 1985, baseada nos Planos Nacional de Desenvolvimento I, II e III, associados à desnacionalização da base industrial do país, ao endividamento externo e ao arrocho salarial no campo e na cidade, como forma de promoção da acumulação do capital.
Esse ciclo esgotou-se a partir da década de 1980 e está associado à crise estrutural do sistema econômico, já sinalizada em 1971 com o fim do Tratado de Bretton Woods e aprofundada em 1979, com a elevação unilateral da “Prime Rate”, a taxa de juros estadunidense que indexava a maior parte dos empréstimos internacionais, transferindo para os países endividados, como o Brasil e toda a América Latina, o custo do desregramento econômico (fiscal e financeiro) dos Estados Unidos da América, afundando o sonho de crescimento dessas economias endividadas e aprofundando as desigualdades sociais que sempre foram muito graves em toda a região.
Com a democratização, a despeito dos esforços internos para promover a estabilização, os efeitos da explosão da dívida externa, a crise fiscal e a hiperinflação, enfraqueceram a capacidade de investimento do Estado e da iniciativa privada, até chegar na moratória da dívida externa em 1987 e a sujeição do país aos ditames “austericidas” impostos pelo FMI – Fundo Monetário Internacional, caracterizados por cortes drásticos nos gastos públicos, inclusive sobre as áreas da saúde e educação, elevação da carga tributária, privatizações de empresas e bens públicos e arrocho salarial. (para lembrança dos amnésicos da economia, o governo Fernando Henrique Cardoso, elevou a carga tributária de 26% do PIB em 1995, para 32,2% ao final de 2002, sendo de 32,4 % atualmente).
Voltando ao FMI, o que parecia servir ao curto prazo, mostrou-se, de modo incontestável, um desastre no longo prazo; reduziu a produção nacional e o consumo, aumentou o desemprego e as desigualdades sociais, caracterizando os últimos 20 anos do Seculo XX, não somente como a “Era Perdida” (grifo meu) por ser mais do que a “Década Perdida”, cujo o alastramento da miséria social chegou a tal ponto que ficou gravada como a “Crise Famélica”, com estimativa de centenas de milhares de mortes, inicialmente silenciadas pela repressão política, posteriormente escancaradas na retomada da democratização.
O único ganho dessa derrocada econômica e social, talvez somente possa ser compreendido dialeticamente, por acelerar a derrocada da ditadura militar. Ainda assim como um processo de “negação da negação”, em que se preservou os elementos constitutivos da crise, aproximando-se, no final, da crítica dialética ou da “Dialética Negativa” de Adorno, sobre a preservação das contradições insolúveis da realidade.
Nesse esteio, vicejaram as ideias neoliberais no Brasil a partir de 1990, amplificando a supremacia do capital internacional sobre a base industrial brasileira, privatizações maciças de empresas estatais, abertura comercial quase irrestrita sob uma economia fragilizada e defasada tecnológicamente, desregulamentação da economia e recusa radical à Política Industrial e mais ainda, a qualquer possibilidade de uma Politica de Desenvolvimento Nacional.
Como demonstrou Celso Furtado em “Não à Recessão e ao Desemprego”, as políticas monetaristas voltadas para o equilíbrio fiscal e o controle inflacionário no curto prazo são geradoras de estagnação e dependência, favorecendo o enriquecimento dos bancos, em detrimento do fortalecimento do sistema produtivo.
O “Laissez-faire” foi festejado também pela classe empresarial genuinamente nacional, na sua grande e esmagadora maioria, formada por micro, pequenas e médias empresas, assim como pela denominada “classe média”, sob a ilusão da supremacia das forças do mercado na promoção do desenvolvimento economico e social. Euforia causada, por desconhecimento da ação das forças que regem a economia ou, pela fantasmagoria ideológica. O fato é que, as reformas foram feitas, as regras neoliberais cumpridas até em excesso e a economia brasileira perdeu posição relativa frente a outras, a taxa de juros da economia não cedeu e as desigualdades sociais jamais foram superadas pela dinâmica econômica e sim, e somente sim, por políticas públicas compensatórias, sem as quais, a Crise Famélica se instalaria novamente, como ensaiou reaparecer durante a Pandemia em 2021.
E o que esteve em comum durante todos esses anos de decadência relativa? A exacerbação da taxa de juros da economia. Com base em dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, constata-se que, de 1980 a 2025, a taxa de crescimento anual do PIB no Brasil, girou em torno de 2,0% a 2,5% como média do período e a taxa de investimento para a Formação Bruta do Capital Fixo, que era de 23,6% no início da década de 1980, variou em torno de 17,5% do PIB entre meados daquela década até 2008. Houve uma melhora no período de 2009 a 2014, alcançando a média de 21% ao ano. Novo declinio tomou conta em seguida, recuando para o nível de 15%, entre 2015 até 2019 e, por fim, situando-se em torno de 17,5% ao ano até 2025.
Estudos diversos, demonstram que essa taxa deveria situar-se, no mínimo, em 25% ao ano, para permitir que o país mantivesse as estruturas físicas existentes e, ao longo de 15 anos, ampliasse e modernizasse o perfil das infraestruturas do país.
Sob a perspectiva de uma abordagem teórica Keynesiana-Estruturalista, o aumento da produtividade do trabalho decorre da alteração estrutural das condições produtivas através da modernização tecnológica que, por sua vez, gera a elevação da força produtiva social do trabalho e à acumulação do capital. Nessa perspectiva, há de se considerar que a manutenção, por 42 anos, da política monetária orientada pela exacerbação da taxa de juros, os efeitos deletérios dela decorrentes, anularam os fundamentos da teoria e tornaram inevitáveis o baixo desempenho da economia brasileira e a expressiva queda da participação relativa do produto industrial na composição do PIB.
Sem subestimar a complexidade das variáveis determinantes do movimento do capital, incluindo a ação dos oligopólios globais que determinam a posição secundária do Brasil na divisão internacional do trabalho e as crises cíclicas que se sucederam desde 1966, há de se convir que as elevadas taxas de juros mantidas por tão longo tempo e os seus efeitos irradiadores, como a apreciação do Real, as restrições à demanda agregada e a baixa taxa de investimento na Formação Bruta do Capital Fixo da economia tornaram-se a razão determinante da vigente “economia política” do baixo crescimento, inclusive durante os governos identificados em campos políticos ou ideológicos distintos.
Há muito tempo se implantou no mundo o estado de “guerra permanente” e o que se dizia em 2003 quanto ao “cenário internacional de excepcional instabilidade política, militar e econômica”, continua válido na atualidade e agravado pelo aumento dos riscos de perda da soberania das nações e pelo desmonte das regras internacionais regidas pela Carta das Nações vigente desde 1945. Os conflitos atuais e o jogo bruto do poder imperial, trouxeram a invitável elevação do custo da energia, dos alimentos, o aumento da instabilidade política e econômica e o retorno, ainda que tímido, ao protecionismo com graves riscos ao comercio internacional.
Sem dúvida, esses efeitos exógenos atuarão sobre os preços em geral, elevando o índice de inflação. Diante desse choque de preços gerado por tal condição excepcional, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional, poderiam alterar a meta de inflação, expandindo-a para 5,5% ao ano, por exemplo e declinando em anos posteriores em função da normalização do cenário internacional. Tal medida evitaria a precificação da taxa de juros elevada, que encarece o crédito, reduz a demanda agregada e os investimentos produtivos, aumenta o desemprego ou a precarização do trabalho, reduz a arrecadação governamental e provoca o crescimento explosivo da dívida pública, fatores estes que, interagindo reciprocamente, destroem qualquer perspectiva de crescimento econômico.
Há uma racionalidade nessa dinâmica, uma especie de desiderato engendrado pelo capital financeiro que deve ser observado e compreendido pela sociedade. Compreender a “ratio” dessa dinâmica econômica que promoveu a aceleração do endividamento público na grande maioria das nações, transformando-se em um complexo labirinto onde o Minotauro que ali se esconde, sacia a sua fome por juro devorando sistematicamente o capital produtivo e os bens do resto do mundo.
Essa engrenagem não é perfeita e dá sinais de desequilíbrios crescentes, gerando imprevisibilidade no presente e temor quanto ao futuro. Nesse contexto, nós, economistas, devemos nos perguntar: Para que serve a Economia? A resposta, segundo a grande economista Joan Robinson, seria: “Para não se deixar enganar por economistas!”
Algumas perguntas adicionais, parecem válidas:
O “Laissez-faire” ou o neoliberalismo está morto na medida em que a maior economia liberal do mundo, tornou-se intervencionista para salvar o sistema da mais grave crise desde 1930?
Pode-se afirmar que o processo do desenvolvimento histórico do capitalismo e os ciclos de crises cíclicas recorrentes desde 1996, culminando com a grande crise de 2008, aceleraram a queda da taxa de lucro da economia real de modo irreversível?
Esse mais-valor está sendo apropriado pelo capital financeiro, cuja a escala e a rentabilidade são desproporcionais face ao capital produtivo, consolidando definitivamente a sua hegemonia no processo econômico e, dada a sua natureza de “antivalor”, tornou-se o capital financeiro, a mais relevante expressão da negação e antítese do sistema?
Reinaldo Sampaio – Economista
09 de junho de 2026
NOTA: Encerro o presente texto, pedindo desculpas àqueles que exigem a bibliografia consultada. Como o meu pensamento é fruto de muitas leituras e autores diversos e, sendo eu regido pelo entendimento que o conhecimento acumulado pela humanidade é um bem comum, no qual, nada é originalmente puro, mas sempre tomado, em parte, de outros pensadores de todos os campos do conhecimento, não é, portanto, obrigatório tratá-lo como propriedade privada. Mas, reverencio todos os filósofos, intelectuais, pensadores e conhecedores de todas as ciências desde os primórdios da civilização humana, por permitirem que a cada período da história, alcancemos e compartilhemos a compreensão individual que apreendemos na observação do mundo.







