Reinaldo Sampaio
Economista, Conselheiro do Corecon Bahia
Diversas abordagens a respeito da economia da Bahia têm sido feitas por especialistas, por segmentos empresariais e pessoas em geral, apontando um cenário de acentuado recuo da sua participação relativa, tanto em relação às demais economias da Região Nordeste, quanto à economia nacional, que, no entanto, os indicadores demonstram ser muito menores.
Em paralelo, diversos meios de comunicação e outras instituições acentuam o significativo crescimento da economia regional, porém, aqui também os números demonstram que tal crescimento é absolutamente insuficiente para se fazer repercutir na redução das desigualdades regionais e sociais.
Os dados apresentados nesse artigo têm como base informes de diversas instituições, a exemplo da SEI – Superintendência de Estudos Econômicos, Banco do Nordeste, FIEB – Federação das Indústrias do Estado da Bahia, IPECE, FGV-Ibre, todos eles tendo como fonte de dados o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Os dados e períodos demonstrados foram obtidos de publicações disponíveis e os hiatos de dados relativos a outros anos do período observado devem-se ao fato de não haverem sido encontrados nos informes pesquisados. Entretanto, a pequena ou quase nula variabilidade dos dados agregados favorece a coerência da abordagem.
Objetiva-se, nesses breves registros, oferecer um lastro de informações que permita subsidiar àqueles que não se dedicam ao estudo do tema a poder avaliar o comportamento da economia baiana, apoiada essa avaliação em dados fidedignos disponíveis.
Por fim, não se trata de um estudo da macroeconomia regional ou da Bahia, nem havia tal pretensão. O propósito é demonstrar que, a despeito das aparentes mudanças na matriz econômica do Estado e do Nordeste, nada mudou substantivamente e, não fosse os programas governamentais ampliados como Bolsa Família, BPC, Auxílio Gás, Farmácia Popular, Tarifa Social de Energia Elétrica, Aposentadoria Rural, Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), PRONAF e outros de natureza inclusiva como o PROUNI e Pé de Meia, parte da população nordestina estaria vivendo maior exclusão social e a mais abjeta situação de fome e mortes por inanição, como ocorreu no período de vigência e após o fim da ditadura militar, com seus efeitos persistindo por longos anos até o final da década de 1990 e início do século XXI. Vale salientar que a “Crise Famélica” ou o “Genocídio Esquecido”, como foi denominado esse período, também ocorria, em menor escala, nas demais regiões do país.
Tabela 1 – Participação do PIB do Nordeste no PIB nacional
| Anos | 2002 | 2003 | 2004 | 2005 | 2006 | 2007 | 2008 | 2009 | 2010 | 2023 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| % | 12,96 | 12,77 | 12,72 | 13,07 | 13,13 | 13,07 | 13,11 | 13,51 | 13,46 | 13,60 |
Vale ressaltar que a participação atual é a mesma que foi registrada para o ano de 1958, apontada no estudo do GTDN – Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, coordenado por Celso Furtado então Diretor do BNDE.
Este é dado relevante como demonstrativo da estagnação relativa da economia regional, frente às demais regiões do país.
Tabela 2 – PIB do Nordeste e participação relativa das principais economias da região
R$ bilhões
| Estados/Anos | 2002 – R$ 613,3 | 2016 – R$ 898,1 | 2023 – R$ 1.513,0 |
|---|---|---|---|
| Bahia | 187,1 = 30,5% | 258,6 = 28,8% | 431,0 = 28,5% |
| Pernambuco | 117,3 = 19,2% | 167,3 = 18,6% | 270,5 = 17,9% |
| Ceará | 91,9 = 15,0% | 138,4 = 15,4% | 232,2 = 15,3% |
Tabela 3 – Participação das principais economias do Nordeste no PIB nacional (%)
| Estados/Anos | 2002 | 2003 | 2004 | 2005 | 2006 | 2007 | 2008 | 2009 | 2010 | 2023 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Bahia | 4,11 | 4,01 | 4,07 | 4,23 | 4,07 | 4,12 | 4,01 | 4,23 | 4,09 | 3,94 | 4,2 |
| Pernambuco | 2,39 | 2,31 | 2,27 | 2,32 | 2,34 | 2,34 | 3,32 | 2,42 | 2,52 | 2,47 | ND |
| Ceará | 1,96 | 1,92 | 1,90 | 1,91 | 1,95 | 1,89 | 1,98 | 2,03 | 2,07 | 2,12 | ND |
Tabela 4 – Participação do PIB industrial da BA, PE e CE no PIB industrial do Nordeste (%)
| Estados/Anos | 2016 | 2023 | Variação |
|---|---|---|---|
| Bahia | 35,0 | 33,90 | -3,14% |
| Pernambuco | 18,4 | 18,04 | -2,00% |
| Ceará | 15,1 | 15,15 | +0,03% |
Tabela 5 – Composição do Valor Adicionado Total por Atividade dos Estados da Região (%)
Ano 2022
| Estados | Nordeste | Brasil |
|---|---|---|
| Indústria | 20,4 | 24,1 |
| Agropecuária | 7,2 | 5,4 |
| Serviços | 72,4 | 70,5 |
Tabela 6 – Participação das exportações da BA, PE e CE nas exportações do Nordeste (%)
US$ milhões
| Estados/Anos | 2010 – US$ 15.867 | 2022 – US$ 25.600 | 2025 – US$ 24.800 |
|---|---|---|---|
| Bahia | 54,8 | 54,3 | 46,5 |
| Pernambuco | 6,9 | 12,1 | 10,2 |
| Ceará | 8,0 | 9,0 | 9,2 |
Tabela 7 – Saldo da Balança Comercial – BA, PE e CE
US$ milhões
| Estados/Anos | 2024 | 2025 |
|---|---|---|
| Bahia | +1,049 | +2,205 |
| Pernambuco | -5,376 | -4,707 |
| Ceará | -1,514 | -449 |
Notas para Reflexão
1.
A participação, da ordem de 13,6% do PIB do Nordeste no PIB nacional em 2023, coincide com a média do período 2002 a 2023 e evidencia a histórica estagnação relativa da economia regional, situando-se no mesmo patamar registrado pelo GTDN para o ano de 1958.
2.
Tomou-se como referência os dados da Bahia, Pernambuco e Ceará por representarem juntos 63% da economia regional. Registra-se que a participação regional no PIB nacional não foi alterada ao longo do tempo (1958 a 2023) e as oscilações da participação relativa dos Estados no PIB regional revelam apenas a redistribuição interestadual do produto, sem produzir redução das desigualdades regionais.
Vale salientar que a renda per capita de todos os Estados do Nordeste situa-se, invariavelmente há sete décadas, no patamar de 50% da renda per capita nacional.
3.
Demonstra que a participação das três maiores economias da região no PIB nacional oscilou em escala muito pequena, tanto negativa quanto positivamente e, dado o peso relativo de cada uma delas, a variação final tende para “zero”, confirmando a permanência da participação histórica de 13,6% da economia regional na nacional.
4.
Apresenta os dados encontrados somente para os anos de 2016 e 2023 e neles observa-se uma queda da participação de 3,14% do PIB Industrial da Bahia no PIB Regional do período, possivelmente influenciada pela saída da Ford, que, segundo a SEI, trouxe um impacto de 2 pontos percentuais no PIB do Estado e segundo a FGV-Ibre, foi a principal causa do recuo da produção física da indústria de transformação do Nordeste em 2021.
Quanto aos demais Estados analisados, Pernambuco caiu 2% e o Ceará cresceu 0,03%. Os dados indicam que houve expansão da base industrial em outros Estados.
5.
Sob o conceito da composição orgânica do capital, é fato que o perfil industrial regional, concentrado em poucas grandes empresas, não provoca o efeito irradiador da composição técnica do capital ou da relação capital-trabalho (K/T), do aumento da produtividade média da economia e da sua repercussão na renda média da sociedade.
A participação do setor de serviços, majoritariamente representado por atividades de baixo valor agregado, e a participação relativa da agropecuária no valor adicionado total, em nível muito superior à média nacional, indicam a baixa composição orgânica do capital que explica a menor participação da indústria no conjunto da economia face à média nacional.
Poucas e grandes empresas performam, majoritariamente e com alto grau de concentração, o valor adicionado industrial. A permanente estrutura da economia do Nordeste, lastreada em baixa composição orgânica do capital, corrobora a estagnação da participação do PIB regional no PIB nacional e as desigualdades sociais acima da média nacional.
6.
Trata do comportamento das exportações regionais em determinados anos. Observa-se que a Bahia teve uma queda relativa em 2025 comparada aos anos de 2010 e 2022, da ordem de 15,1% e 14,4%, respectivamente, mantendo, entretanto, a liderança regional, com exportações da ordem de US$ 13,9 bilhões em 2022 e US$ 11,52 bilhões em 2025.
Sem ampliar a análise, é provável que o problema central da queda esteja relacionado ao comportamento das exportações de produtos industrializados, cuja relação reflexa com a indústria de transformação localizada no Sul/Sudeste acompanhou a mesma queda de desempenho das exportações de manufaturados registrada no âmbito nacional.
Quando a BYD alcançar a sua escala plena de produção de veículos, 150 mil, depois 300 mil e por fim 600 mil unidades, a posição da Bahia no ranking das exportações regionais será positivamente alterada.
Por outro lado, no Ceará a entrada em operação da Companhia Siderúrgica do Pecém quase duplicou as exportações do Estado, passando de US$ 1,27 bilhão em 2010 para US$ 2,3 bilhões em 2022 e US$ 2,28 bilhões em 2025.
Quanto ao Estado de Pernambuco, este também registrou crescimento significativo das exportações no período 2010/2025, passando de US$ 1,1 bilhão naquele ano para US$ 2,53 bilhões em 2025. Os números expressam o efeito positivo das exportações do setor automotivo, bem como do aumento das exportações de derivados de petróleo e produtos químicos influenciados pelas atividades e pelo efeito irradiador da Refinaria Abreu Lima.
7.
O recuo da participação relativa das exportações da Bahia no contexto regional demonstrado na Tabela 6, a balança comercial continuou positiva e com expressiva melhoria em 2025.
Por outro lado, apesar do crescimento significativo das exportações de Pernambuco e do Ceará nos últimos anos, esses Estados apresentam elevado déficit na balança comercial. No caso de Pernambuco, o déficit anual representou 261% das exportações de 2024 e 188% do valor das exportações de 2025.
Conclusão
Não se pode elogiar o desempenho da economia baiana no período, entretanto, o grau de concentração industrial em plantas de grande porte faz repercutir, de modo acentuado na economia e nas exportações, eventual aumento ou redução das atividades produtivas, mesmo que de um ou poucos desses empreendimentos.
Acontecimentos relacionados à Refinaria Landulfo Alves em passado recente e à saída da Ford da Bahia e também do Brasil irradiaram efeitos negativos para o desempenho econômico do Estado, alcançando outros segmentos industriais e de serviços instalados na Bahia e que integravam as respectivas cadeias de suprimentos.
Deve-se considerar que o Nordeste apresenta graves insuficiências de infraestruturas nas suas diversas naturezas, tais como rodovias pavimentadas e duplicadas, ferrovias eficientes integradas às estruturas portuárias, infraestrutura de comunicação, saneamento básico, limitada capacidade endógena, pública e privada, de investimentos, amplo espectro de pobreza refletido na participação de 47% de nordestinos no total dos beneficiários do Bolsa Família, em uma população que representa apenas 26,8% da população nacional.
Uma nova realidade se aproxima com a Reforma Tributária dos Impostos Indiretos, que acabou com a política de incentivos fiscais estaduais para a atração de empresas, devendo o saldo dos benefícios pré-existentes se encerrar até 2032, não podendo mais nenhum Estado praticá-la.
Nesse sentido, como a alíquota do IBS será igual em todo território nacional e para todas as atividades econômicas, à exceção do Simples Nacional, a Bahia e o Nordeste disputarão com os Estados e regiões economicamente mais avançadas, com ampla base industrial e melhor infraestrutura, a preferência das empresas industriais, em inconteste desvantagem de reais vantagens competitivas.
As necessidades regionais são muito bem conhecidas e sobre elas já se escreveu verdadeiros “compêndios”, sempre empunhados por aqueles que fazem oposição ao governo em exercício, mas que, quando governaram, não foram capazes de realizar.
Não é por maldade ou por incompetência dos governantes que os investimentos fundamentais, portadores dos fatores estruturantes de produção, não foram realizados, ainda que não se possa descartar evidências de ambas deficiências de um ou outro governante ao longo da história.
Os investimentos estruturantes não foram feitos por uma razão essencial, que pode ser expressa em uma frase:
“A Bahia e o Nordeste são pobres, porque são pobres!”
Sem uma reciclagem de excedentes operada através da implementação de uma Política Nacional de Desenvolvimento Regional, não haverá superação do atraso relativo que determina as desigualdades regionais.
Tal desiderato somente é possível se a economia política vigente orientar-se na direção do desenvolvimento mais equânime das regiões brasileiras. Tal perspectiva não se mostra politicamente viável no horizonte percebido.
Ao contrário, pode-se observar sintomas adversos a uma política de desenvolvimento regional, até mesmo nas diretrizes da nova política industrial em curso, denominada NIB – Nova Indústria Brasil. Ela se orienta pela lógica do mercado, no tocante à localização territorial dos investimentos produtivos, ou seja, sem indução governamental para a localização do investimento como instrumento de desenvolvimento regional.
Não havendo meios e recursos exógenos orientados para promover a superação do atraso relativo, a tendência é o aprofundamento das desigualdades regionais e das desigualdades intra e interestaduais, com suas repercussões sociais a serem mitigadas por políticas públicas assistenciais.
O futuro dirá!
Reinaldo Sampaio – Economista







