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A mais-valia e a esquerda Marxista

Economista Livio A. Wanderley, conselheiro do Corecon-BA.

 

Livio A. Wanderley[1]

Uma síntese sobre o pensar e agir do movimento de esquerda requer um resgate histórico e uma contextualização sobre a diversidade de focos. Historicamente, enfatiza-se para a semântica seminal, dado que o termo, “esquerda” ficou conhecido com a I Grande Revolução, ocorrida na França em 1789. Diante de um Parlamento subjugado do poder divino do monarca Luiz XVI, este, era constituído de basicamente duas tendências políticas que se posicionavam seus assentos, os girondinos, conservadores (à direita) e os jacobinos revolucionários, opositores ao então status quo do poder político e da ambiência social (à esquerda). Assim, nasce o que se configurou as posições de esquerda como aqueles que, pregavam mudanças em prol do social e de apelo popular.

Adentrando no século XIX, ressaltam para os vários movimentos associados à esquerda que defendiam a mudança social na Europa, a exemplo das barricadas de Paris e do manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels em 1848, e da Comuna de Paris em 1871. Inicia-se a então denominada “esquerda marxista”, que pelo menos duas clivagem a literatura apresenta: o “marxianismo” por sua fidelidade aos princípios de “O Capital” de Marx, pautado no chão de fábrica e na luta de classe consolidado em países industrializados e ilustrado por M. Tronti em seu “Marx em Detroit”; e o “marxismo” que se desdobram segundo G. Arrighi em sua versão ideológica e política, disseminado em países periféricos através do marxismo leninista e de suas derivações através de Mao Tsé-tung, Ho chi Minh, irmãos Castos, etc.

Esse breve cenário histórico situa as origens do foco dessa síntese que visa refletir sobre a forma de geração e apropriação da mais-valia (MV), que têm se transformado através da evolução do conhecimento e da técnica de produção, constituindo-se de três momentos históricos, sendo os dois primeiros baseados em tecnologias rígidas e o terceiro em tecnologia flexível, correspondendo às estruturas de produção técnica especializada e segmentada, e multifuncional e compactada, respectivamente. É fato que na medida em que a técnica evolui a disponibilidade de bens e serviços para a sociedade se eleva, no entanto, diante do DNA do sistema que se ancora no desequilíbrio da relação capital/trabalho, definido pelos correspondentes conceitos de capitais constante (C) e variável (V) configurados na composição orgânica de capital (C/V), tem-se uma sociedade de classe tal que, a força de trabalho gera o valor e o capitalista se apropria de parte desse valor através da taxa de mais-valia (MV/V), visando compensar a pressão de custo sobre a taxa média de lucro (MV/(C +V)).

No primeiro momento, é fato que com a então I Revolução Tecnológica baseada na mecânica durante o século XIX, tem-se o choque da Grande Indústria e a consolidação do então capitalismo assalariado em que a base da geração, acumulação e reprodução do capital se apoiava no então conceito de “mais-valia absoluta”, focada basicamente na quantidade e tempo social do uso da força de trabalho como meio de produção, visando uma maior criação de valor e apropriação de mais-valia pelo capitalista.

O segundo momento ocorrendo com o advento da II Revolução Tecnológica baseada na eletricidade, tem-se o “modus operandi” do capitalismo fundado no conceito de “mais-valia relativa” com o uso de maior composição orgânica de capital. Ressalta-se para o maior rigor neste estágio quanto ao conceito de produtividade, pois quanto maior a produtividade mais se  cria, acumula e se apropria mais-valia com menor tempo de trabalho, importando para o sistema do capital a maior eficiência do seu processo acumulativo.

O terceiro momento se apresenta com a difusão social das novas tecnologias ancorada na microeletrônica computacional (chip), na robótica, etc. Dado a tendência histórica no desenvolvimento das forças produtivas em que ocorreram processos de substituição, do trabalho humano como fonte de energia pela indústria, como fonte de informação que determina o que e como fazer pela automação; tem-se atualmente o trabalho humano se desconectando de sua função mecânica e quase “in toten” da ação intelectual, situando-se em um estágio pré-produtivo, tal que os sistemas produtivos pós-modernos requer a geração de conhecimentos através de C&T, dando um sentido lucrativo e integrando-se ao estágio produtivo, propiciando alta na produtividade econômica. Dessa forma, os ganhos dos capitalistas passaram a ser função direta das produtividades entre os ramos da produção, tendo como condição sine qua non, como aludi E. Mandel, a necessidade de incessantes inovações técnicas que se traduz na busca de rendas tecnológicas.

A finalidade de se obter rendas tecnológicas é condição para o êxito de se obter vantagens competitivas, requerendo-se para tal, alto teor de inovação acompanhado por uma gestão e produção flexível, reduzindo-se custos e tornando o produto competitivo. A necessidade de criação dessas rendas mostra a importância da apropriação das inovações produtivas através de invenções, controle de patentes e know how, tornando-se o diferencial no comércio. Isto deve-se ao fato da capacidade competitiva exigir uma composição orgânica de capital mais elevada que pressiona a taxa de lucro para baixo, tal que a sua compensação passa a ser norteada pela capacidade de se gerar C&T, possibilitando a apropriação de mais-valia relativa por parte dos que detêm maiores vantagens competitivas.

Diante desse cenário histórico e técnico, a economia vem atingindo a sua plenitude de capitalização entre as atividades econômicas, implicando na equalização de produtividades, revolucionando a criação e apropriação da mais-valia, pois os ganhos do capital passa ocorrer através do capital humano e não mais da força de trabalho laboral no âmbito industrial, além da também apropriação de mais valia através de vantagens de comércio.

[1]Bel. Economia (UERJ), Me. Economia (UFBA), Dr. Administração (FGV/SP) e Professor (PPGE/UFBA). livio@ufba.br